Ele está na crista da onda, é a última moda, é o que há, é da hora, é fashion, o verdadeiro e definitivo “ó do borogodó”, o “rei da cocada preta” (mas tem da “branca” também), “é cocada boa”, parafraseando mestre Bezerra (mais um) da Silva! Enfim, o Vazio é o cara! Mas o vazio não é gente, não… nem coisa. O vazio é mais um fenômeno, um acontecimento ou, melhor ainda, um evento.
Não quero traçar aqui nenhuma relação com esses filósofos e pensadores de grife, Proust, Nietzsche, Sartre, até porque não creio que eles tivessem noção desse vazio naqueles tempos, quando o vazio em questão era o existencial, bem mais subjetivo do que esse vazio contemporâneo ao qual me reporto.
Ah, vocês estão querendo muito saber, a essa altura, do que se trata, né não? Pelo menos deveriam, pois é a intenção dessa minha dissimulada enrolação inicial, técnica que desenvolvo intuitivamente pra “pegar” a atenção do leitor – nesse caso, vale lembrar, a sua! Ahaha… É, eu sou mesmo assim, não gosto de jogos, mas quando jogo, sou afeito ao jogo limpo, mas vamos aos fatos (ufa…!)!
O Vazio. Fui acometido por esses dias da súbita percepção de uma dessas coisas em que a gente até eventualmente pensa, mas que nem sempre chega a esmiuçar, e, como não dá pra não falar da arte, vou por aí, embora o tema se estenda a praticamente todos os âmbitos da vida da gente. Não sou tão engajado ou tão politicamente correto – aliás, detesto isso, essa correção toda acaba nos tornando “comportadinhos”, no pior sentido do termo, e uma dose de rebeldia e outra de transgressão fazem bem à nossa saúde moral – enfim, não chego ao ponto de achar que a arte tenha que obrigatoriamente ter uma função explícita ou explicitamente definida na sociedade. Ela por si só, já carrega e cumpre todas as suas possíveis funções, isso sim, implícitas na sua condição natural de obra de arte. Mas realmente não levo isso ao extremo, considero diversão algo necessário, mas também não posso deixar de me incomodar com o Vazio. É isso… o vazio em que andamos imersos ultimamente, o vazio de intenções, o vazio de propósitos, de propostas… A programação das tevês, as paradas de sucesso, a publicidade, as letras das canções, as próprias canções, isso não acaba mais, hein! É uma lista infinda de coisas que não contribuem com nada, nem mesmo se analisadas somente pelo aspecto do entretenimento, cuja relevância reconheço como legítima. Na minha humilde maneira de ver, as coisas podem ser feitas pra entreter sem maiores ou mais profundas pretensões, mas nunca, nunca suprimidas de sua inteligência. Definitivamente, sem inteligência não dá! Não essa inteligência meramente intelectual, acadêmica, mas aquela que está nas ruas, na sabedoria popular, que é a mais sábia das inteligências.
Nem preciso citar os BBBs, nem as rebolativas animadoras de platéia de micareta (e aqui, que fique bem claro, não vai nada contra o rebolado!) – que os promotores do Vazio insistem em chamar de cantoras – e nem as telenovelinhas, não é? E os cornos-mansos-rancorosos-e-chorosos – além de machistas – dos maus pagodes e dos pseudo-sertanejos? Também dispensam citações, certo? Obrigado por me pouparem dessa náusea (e olha o J.P. Sartre, aí…).
Gente, o Vazio tem construído fortunas! No mundo inteiro, não estou me restringindo ao Brasil, não… A parada é grave, tem sido um fenômeno universal, uma festa rasa, onde os convidados somos todos nós, que compramos qualquer inutilidade que nos apresentem, pensando se tratar da última grande novidade do mundo culto moderno. Claro que não desconsidero a existência de valorosas exceções, de coisas que salvam a humanidade do medíocre, mas que trabalho que dá encontrá-las, cada vez mais, não? A gente tem que burlar os padrões, furar o bloqueio, dissipar a nuvem da desorientação que lançam por aí.
Lembrei-me, no meio de toda essa elucubração, e não consigo deixar de falar do nosso querido bairro da Lapa, isso mais pros leitores cariocas, os de fato e os de coração. Talvez por ter passado lá por esses dias. Pois é, até ela, a Lapa – que é o nosso mais amado ponto de encontro, nosso reduto e reserva sócio-artístico-histórico-etílico-cultural -, quanto mais cheia de gente e de atrações, me parece cada vez mais… vazia.
Quem é Joe Lima?
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Joe Lima é músico, carioca, baixista da banda Caixa Preta. Joe é multi- instrumentista de cordas e auto-didata. Joe já tocou com vários nomes da música popular brasileira e escreverá sua coluna sobre música, chamada Caixa Preta, exercendo sua grande vontade de trabalhar com jornalismo
Vinícius Longo
Velho, gostei do texto. Leve e preciso. Penso que entre nós esse movimento (o esvaziamento) tem pelo menos duas raízes, uma individual-subjetiva e outra sócio-comunicativa:
1) o niilismo europeu, que ainda acomete boa parte da pobre elite (isso, porque suas questões ainda são basicamente as mesmas desde o final do Império) e
2) a simulação/emulação das linguagens e padrões de interação e seu consequente descolamento em relação a qualquer contexto estável.
Não vou comentar a primeira parte, por ser ela nossa velha conhecida – Machado retratou-a como ninguém na figura de Brás Cubas.
A segunda, creio ser um desafio mais recente para o nosso entendimento e nossa capacidade de “sabotagem cultural”.
Ela é mundial, como você destacou. Começa com um descolamento saudável resultante da vida nas cidades modernas (pelo cruzamento de referências diversas dentro do mesmo espaço) e permite arranjos híbridos, mestiços e aparentemente incoerentes em relação ao estabelecido.
O problema começa quando a indústria se apropria desse movimento e o acelera para fins de produção e consumo. Ela banaliza seus produtos (que já não são feitos para durar mesmo) e provoca um efeito contextual com essa enxurrada de lixo: uma “poluição a priori”, digamos assim.
Isso tudo acontece, acredito, pela dificuldade da maioria em distinguir, no meio do “lixo a priori”, as coisas que se sustentam por si e rejeitar o que “parece mas não é” (Denorex! hahahaha).
É neste sentido que falo em capacidade de “sabotagem cultural”. Algo que requer discernimento e sagacidade. Creio que o primeiro passo seja não deixar a malícia que nos permite viver, a nossa malandragem, cair no “discurso de guia turístico”.
Isto é, não nos deixarmos enquadrar pelas categorias impostas pelo servilismo a “quem pode ter, mas não sabe ser”.
Por isso, sou um tanto radical com a questão do jongo no mercado. Não se trata de purismo (conservador), de querer confiná-lo em seu lugar tradicional e negar sua historicidade contemporânea, mas de perceber que sem um contexto, qualquer que seja, o jongo também vira “lixo a priori”. E que assim perderemos uma de nossas melhores armas, porque invisível.
Grande abraço!
Joe Lima, meu proto-parceiro musical, muito legal o seu texto. É isto mesmo, nos movemos no vazio e interagimos no vazio de um tempo artisticamente bastardo. O que nos salva é que, modéstia à parte, somos filhos de uma herança musical plena de nutrientes estéticos que nos alimentou e alimenta até hoje. E, à feição de camelos que carregam em si suas reservas líquidas, estamos eternamente atravessando um deserto de indigências, prospectando um tempo melhor de se ouvir/ver/fazer/tocar.
E Gil nos disse um dia:
“É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
está cheio de ar…”
E nós estamos aí, vivos, pra encher este copo de um néctar-estético-vitalizante.
E Gil mais uma vez: “Pé Quente, Cabeça Fria!”…
Um grande abraço, irmão!
Henrique Silva
Salve Joe, beleza seu comentário, foi certeiro em sua observação do cenário existencial, cultural, político, social, etc. Sabe por que “tá” vazio?
Porque “levaram” tudo, não deixaram nada…nadinha..Já reparou nos interesses da juventude, em sua maioria?
Não deixaram nada p’ros caras, levaram suas consciências e a capacidade de indignação. O “entretenimento” que se dá aos jovens é para que eles se alienem cada vez mais, aprendam a não pensar, a não saber expressar o pensamento próprio, quando se expressam vem sempre com frases de “grifes” e aquele jeitinho “modernoso” característico das “antas”, com todo respeito ao animal.
Esperar o que de uma geração malhação-cocacola-turbinada a la raves??
Onde estão os novos poetas, músicos, artistas, pensadorees?? Na Lapa??
Antes era pão e circo, agora é o “entretenimento” que “distrai” suas consciências da realidade vazia em que estamos todos atolados até o pescoço. Que os túmulos fiquem VAZIOS!!!!
Ressuscitem Raul, Drumond, Gonzaguinha, John, Augusto dos Anjos, Morrison, Mario Ferreira dos Santos, Hendrix, Joplin e é claro a Clementina de Jesus que ninguém é de ferro. E meu bolso continua VAZIO..ahahahahahah
SUNNIA, O VAZIO SAGRADO DO BUDISMO
Desde que os ocidentais tomaram conhecimento dos fundamentos do Budismo, causou enorme estranheza a idéia do Vazio como forma suprema de felicidade e libertação, um conceito tão diferente das imagens idealizadas de felicidade terrestre ou do paraíso alimentados pela teologia ocidental, estes últimos baseados em cenários oníricos de campos verdejantes e floridos e cidades com telhados de ouro e ruas pavimentadas com rubis e esmeraldas.
Afinal quem quer a felicidade em um vazio, ou receber o vazio como forma suprema de felicidade?
O Budismo sempre desconfiou do êxtase cristão ou das arrebatadoras e intensas alegrias do paraíso. A felicidade estampada na face de um Buda em meditação é de uma calma profunda e estável e de uma suave sensação de abstração e benevolência. Aos budistas sempre pareceu que os arrebatadores êxtases cristãos têm um fundo emocional próximo de uma embriaguez.
Por outro lado, a serena sensação de ananda (beatitude) dos budistas sempre pareceu fria, sem graça e pouco atrativa, sob a perspectiva dos cristãos.
Culturas diferentes trazem visões diferentes e atitudes diferentes.
Para os budistas a felicidade está na cessação do sofrimento. Ao se eliminarem as causa do sofrimento, surge uma felicidade inerente que já existe no fundo da natureza humana.
Para os cristãos, a felicidade é uma conquista ou um prêmio pela redenção, portanto, têm de se revestir de todas as prerrogativas de satisfação e prazeres espirituais que compensem os prazeres sensuais e materiais abandonados em prol da busca pela salvação.
O que geralmente passa despercebido na análise das motivações do budismo é que este é um movimento reformador do hinduísmo.
Como o hinduísmo passava por uma crise de confusão e descoordenação decorrente do excesso de divindades e do excesso de filosofias, o Budismo teve de assumir uma forma negativa de afirmar a divindade, para contrabalançar e depurar o hinduísmo excessivamente animista e intelectualizado.
Por esse motivo, Buda resolveu adotar a estratégia do não-eu, do não-ser e do Não-Deus.
O Budismo adotou a via negativa, como um movimento de antítese à via afirmativa do Hinduísmo tradicional. Todo o hinduísmo era fundamentado no conceito de Atmã, afirmando a identidade essencial do Atmã e de Brahman.
O budismo é uma doutrina anatma ou anatta (Não-eu), negando a existência de qualquer entidade permanente e ensinando que a realidade é vazia e que a única coisa existente na natureza humana são os “agregados” (Skhandas) que se transmitem de uma encarnação para outra.
Atualmente, torna-se mais claro que este foi um artifício usado por Buda para evitar a fixação conceitual que impede a experiência direta.
Obviamente os agregados teriam de se agregar em torno de alguma coisa, visto que não poderiam ficar flutuando soltos no espaço sideral. Caso os agregados não se agregassem em torno de algo (um elemento agregador), fatalmente se desagregariam e não seriam agregados e sim desagregados.
E que elemento agregador poderia ser esse senão o atmã (o eu interior) ?
De certa forma, a Vedanda, a mais elevada e sutil forma de elaboração filosófica do hinduísmo, também ensina a mesma coisa, porém através da via afirmativa, quando afirma que “Sarvam tat kaluvidam Brahman” (Em verdade, tudo isso é Brahman). Se tudo é Brahman, então o Eu não existe, visto que é uma manifestação ou uma projeção da Consciência suprema.
Se a mesma mensagem pode ser expressa pela via afirmativa e pela via negativa, qual seria a vantagem do cânone budista de ensinar através da via negativa?
A grande vantagem da via negativa é não evitar a arrogância tão comum nos sacerdotes, e particularmente nos brâmanes, que ficam plenos de si com o próprio saber, além da fixação conceitual do saber teórico impedir a experiência direta.
É preciso muito cuidado ao se introduzir um ensinamento pela via negativa, visto que pode causar niilismo, desesperança e desinteresse, especialmente nas almas ainda imaturas e ávidas de experiências e sensações.
O fato é que o Budismo, na forma original, é a religião mais madura da humanidade. É destinada às almas antigas e já cansadas de girar na roda do Samsara.
Buda ensinava que nada poderia ser dito sobre a felicidade que existe fora do tempo. Isso apenas poderia ser experimentado, e qualquer fixação conceitual ou preconceito impediria essa experimentação direta.
Por isso, a preocupação básica do Budismo era criar uma vivência ética, através dos preceitos e eliminar todas as fixações conceituais. Por isso, fez a opção pela via negativa.
A mais sutil e genial elaboração do Budismo foi a noção de Sunnia, o vazio sagrado, uma forma original e sui generis de apresentar o princípio supremo do universo de uma forma negativa , evitando condicionar a mente dos devotos com estereótipos e falsos conceitos sobre aquilo que não pode ser nominado nem conceituado.
Joe,
adoro seu jeito de escrever, direto, como numa conversa… até imagino, enquanto leio, vc falando, rsrsrs
O tema foi bem escolhido… eu acho que esse “vazio” é sim, aquele que os filósofos falavam, o existencialista, o de cada pessoa. Só que tá tudo exteriorizado… tb, tantos meios de divulgação, de se colocar pra fora até mesmo esse vazio, rsrs E isso vale tanto para os que fazem e propagam, como para os que consomem… Todos vazios…
Mas, como, teoricamente, o vazio pode ser enchido… Vcs que fazem Arte inteligente têm que continuar nessa luta, às vezes inglória, pra mostrar um outro lado pra essas pessoas… é um caminho mais difícil de ser consumido, pq pensar cansa… dá um trabalhinho… rsrs
Tenho um exemplo na minha casa, hoje, minha filha,13 anos, entrando na adolescência, tá consumindo todo esse vazio, e o pior, gostando… o que posso fazer é mostrar outro caminho, outras coisas… Seria contraproducente obrigá-la a só ouvir e ver o que eu acho bom, então, por fora, sem que ela perceba minha estratégia, hehehe, vou apresentando outros horizontes mais fecundos… acredito que com o tempo, com o amadurecimento, quando passar essa fase de querer fazer parte da “manada”… Ela vai despertar!! Eu não desisto disso, nunca!!!
E vcs tb não, por favor, Joe!!! Continuem!!!!
Anima-me saber que as estruturas de poder não são invisíveis, que podem ser feridas. De fato, o vazio está cheio de simulacros. Porrar o poder, esvaziar o vazio e competir na ocupação dos “vazios”, pois o poder não suporta vácuo.
Um abraço.
Aljor
sem querer elocubrar, concordo plenamente com vc !!! Belo texto !!! Abs. Pj
ta que ta em joe? bjokas
Tchê!
Eu diria que são dois problemas gravíssimos que sofremos: a exposição e o esvaziamento. Um como consequência do outro, num círculo vicioso que parece não ter fim… É uma exposição absurda das pessoas, nesse mundo midiático-instantâneo. Nesses dias eu estava lendo um livro do Tolstói, um camalhaço de quatrocentas e poucas páginas, e me peguei pensando: “Nossa, os livros de hoje estão cada vez mais fininhos… as peças de hoje não duram mais que uma hora… as músicas têm o tempo limite de 3 minutos pra tocar nas rádios… a produção de um espetáculo obedece ao tempo que o edital oferece, e não ao tempo do grupo… as informações são postadas em tempo real… o nosso corpo está cada vez mais preguiçoso e inexpressivo porque a máquina faz tudo por nós…” É tudo instantâneo, não se procura aprofundar uma idéia. É essa rapidez exacerbada uma das causas desse esvaziamento. São as pessoas fechadas no seu mundinho, apressadas, consumindo o mundo instantâneo.
Ai, viajei hehehehehhe
Beijo, querido! Belo texto!
Pode crer parceiro!!!
O Tim Maia é que tava certo:
-Tudo é tudo e nada é nada!!!
A pergunta é:-Será que tem salvação ou se eles se salvarão???E por falar nisso,um abração!!!