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Dr.Boêmia: Um “rapaz folgado” e suas andanças pelos bares da vida…

Luiz Manhães

Outro grande boêmio, Noel Rosa, alegrará o bairro de Vila Isabel, onde morava, na rua Teodoro da Silva 130, a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil nas décadas de 20 e 30 do século passado. Sua mãe, Martha de Azevedo Rosa era professora e transformou sua casa em escola, quando as dificuldades do seu marido, Manoel de Medeiros Rosa, exigiu sua colaboração. A intimidade com as palavras, sua poesia altamente refinada, vem do amor de seus pais pelas letras.

Sua obra musical aparece no ano de 1929, quando estava com 19 anos, e aproveitava a noite do Rio, com seus bares e cabarés, vivendo intensamente a vida marginal e boêmia da cidade. No início dos anos 30, Noel Rosa abandona o curso de Medicina, para tristeza e frustração de seus familiares, e passa a dedicar-se a sua carreira musical. No carnaval de 1931, sua música Com que roupa? foi a mais tocada, chegando a vender quinze mil discos, um recorde para a época.

Casou-se com Lindaura em 1934 quando esta tinha 13 anos e ele era 11 anos mais velho. Sua esposa, a partir de então, irá se juntar à dona Martha, que se desesperava com as noitadas do filho. Deixava versos e bilhetes de amor presos às cordas do violão, para que ela os encontrasse pela manhã, quando ainda não havia chegado em casa vindo da noite de boemia. A mesma noite e a mesma boemia que, misturadas ao álcool, foram alguns dos responsáveis pela tuberculose que acabaria levando-o à morte, quando tinha apenas 26 anos, quatro meses e vinte e três dias. Essa sempre foi a marca de Noel: sua criação não requeria uma condição especial. Durante as noites de boemia, a bebida e a poesia iam se misturando e se transformando em canções. Não precisava de rituais e, talvez, sua produção tivesse como único requisito o lugar, pois era na rua que suas músicas surgiam e era nos botequins que elas cresciam e ganhavam a cidade. Em sua vida e obra, muitas vezes Noel Rosa personificava o “rapaz folgado”, ele que era figura boêmia e assíduo freqüentador dos cabarés da Lapa e dos botequins de Vila Isabel. Para Noel, o botequim é mesmo tudo: a segunda casa, o escritório, o clube, o centro comunitário e o balcão de negócios, onde a cada canção, ouvida sempre em silêncio, Noel e os outros são pagos pela platéia: cervejas, fatias de frios e queijos, às vezes uma sopa, por conta de um rateio feito ali mesmo, na porta do botequim. Ele é o intérprete dele mesmo, do que acontece, o herói da história e seu oposto é o zé-mané, o otário que trabalha e que não percebe as oportunidades da vida.

CONVERSA DE BOTEQUIM (Vadico/Noel Rosa)
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Fecha a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Se você ficar limpando a mesa,
Não me levanto e nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palito
E um cigarro pra espantar mosquito
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste uma revista
Um cinzeiro e um isqueiro
Telefone ao menos uma vez
Para 34-4333
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empreste algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro.
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa no cabide
Ali em frente…

Este samba cheio de ironia, de 1935, cantado de forma irreverente e próximo da fala cotidiana, narra uma hipotética conversa entre um “rapaz folgado” e o garçom num botequim, no qual o boêmio ordena um tratamento de primeiríssima qualidade apesar de não possuir dinheiro algum para recompensá-lo. O narrador parece estar habituado ao estabelecimento e à situação, pela intimidade com que lida com a mesma, referindo-se ao bar como “nosso escritório” e pedindo dinheiro emprestado ao garçom com naturalidade. Muita gente diz ter presenciado Noel compor à mesa deste ou daquele bar este seu samba imortal, já que o sambista de Vila Isabel com essa história de dizer vou cantar um samba que acabo de fazer vivia dando às pessoas a impressão de que o acabo de fazer significava, literalmente, que o samba havia sido feito há instantes…A próxima música, de 1931, com o jovem Noel cantando possivelmente com Artur Costa não é apenas inédito ou raro, mas único. Ficou mais de meio século recolhido ao baú de guardados da família. Noel preferiu assim, talvez por não ter sustentado convenientemente um ou dois agudos. É clara a referência à política populista de Getúlio Vargas, recomendando que as repartições públicas jamais dissessem um não a qualquer pedido: O senhor espere alguns dias que vamos ver o que podemos fazer…

ESPERA MAIS UM ANO (Noel Rosa)
Espera mais um ano que eu vou ver
Vou ver o que posso fazer
Não posso resolver neste momento
Pois não achei o teu requerimento
No samba tu quiseste me perder
Tentaste na orgia me arrastar
Mas hoje que eu não quero me prender
Procura um coronel pro meu lugar
Tu foste sempre a minha diferença
Chegaste me obrigar a te bater
Já chega de pancada e desavença
Espera mais um ano que eu vou ver
Sapatos e vestidos eu te dei
E tu não me pagaste o que eu te fiz
De tanto te aturar eu já cansei
Agora vou voltar a ser feliz
A tua pretensão vai acabar
Meu câmbio vai subindo, vais descer
As coisas para mim vão melhorar
Espera mais um ano que eu vou ver

Quando Noel Rosa morreu, em 1937 e aos 26 anos, já havia registrado 230 músicas, sem contar as inúmeras vendidas ou perdidas no turbilhão da noite. Dizem que chegava a fazer cinco músicas no mesmo dia, sendo um observador atento do cotidiano, um cronista da vida e dos costumes de seu tempo. Esse gênio é a prova mais perfeita de que a boêmia é um lugar de produção, de se recolher palavras, frases e expressões, mesmo que essa vida intensa tenha abreviado a sua passagem pelo mundo…
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Quem é Luiz Carlos Manhães?

Professor universitário da UFF, Luiz Carlos Manhães realiza um curso regular: “redes educativas na boemia musical”. Sugerindo o nome da coluna como: “boemia musical” ou “Os Boêmios”, em homenagem a Anacleto de Medeiros, autor da música gravada pelo Cordão do Boitatá. Entretanto, a coluna ficou como Dr. Boêmia em homenagem ao doutor especializado em boêmia. Viva!

Vinícius Longo

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2 Comentários para “Dr.Boêmia: Um “rapaz folgado” e suas andanças pelos bares da vida…”

  1. Leti (

    Só acho q talvez Noel não gostaria de ser chamado de “Rapaz folgado” já esta foi uma referência feita por ele a Wilson Batista.

  2. Silverton (

    Olá meu querido boêmio agradeço por manter viva a boêmia como movimento contra hegemónico cultura popular carioca.

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