A revista Guerrilha Aberta, enviou a entrevista, mas demorou algum tempo, até encontrar o cineasta mais desvairado do Rio de Janeiro. Como ele próprio diz: “Não gosto de me definir. Sou uma obra em processo“, Felipe Cataldo é uma espécime rara, entre os artistas, sem idéias fixas, sua linguagem está na transformação, seja na poesia, no funk, no cinema, escrevendo roteiros, filmando, revelando, exibindo. O cinema é sua grande paixão.Com vocês: Felipe Cataldo!

GA: Quantos filmes você já atou? E qual é o seu principal trabalho hoje, no universo da arte? Cascadura, por exemplo foi um curta preto em branco, revelado e montado artesanalmente, o que você poderia dizer sobre esse processo de produção cinematográfica, onde o digital hoje toma conta? 
Cataldo: Outro dia tentei contar, acho que foram 23. Mas em casa só tenho 16. Alguns diretores não me deram os dvds dos filmes de que participei. Alguns filmes eu inclusive nunca vi, e outros não foram finalizados ainda. Nunca vi o primeiro filme que fiz como ator, por exemplo. E o pior é que deve ter ficado engraçado, porque rolaram uns efeitos especiais. Eu me vesti de anjo e de diabo com um fundo azul e surgia sobre os meus próprios ombros no bar, ao ver uma menina. Aquela velha coisa que os desenhos do Pica-pau já cansaram de fazer, mas mesmo assim eu queria muito ver esse filme. Nem sei se saiu, na verdade, nunca mais vi o diretor na vida, até esqueci o nome dele. Também trabalhei como ator nos quatro filmes que eu dirigi. Recentemente finalizaram-se as filmagens do primeiro longa-metragem de Igor Cabral, “Salomé”, livremente inspirado na obra de Oscar Wilde. Esse foi meu trabalho mais recente no cinema como ator. Eu fiz o papel de Iokanan, o profeta João Batista.
Estou ensaiando também uma peça teatral como ator, “Senhora dos Afogados”, texto clássico de Nelson Rodrigues, com a direção de Renato Carrera. Devemos estreiar em novembro no SESC. Em fevereiro, estreiei meu mais recente curta-metragem como diretor, “Trago a pessoa amada em três dias”. O filme foi selecionado pro Festival de Santos, na competitiva 16mm, estou indo pra lá no fim de setembro. “Cascadura” foi o filme que eu dirigi ano passado, com o Godot Quincas. O filme ganhou três prêmios e fomos com ele para o Festival de Brasília, na competitiva 16mm. Revelei e montei o filme com a fotógrafa, Cristiana Miranda.
Ela já tinha revelado um filme dela, “Pequeno Poema em Prata“, e topou essa aventura. A primeira parte do filme toda foi fotografada pela própria Cristiana Miranda. Depois mais dois fotógrafos trabalharam no filme, Igor Cabral e Othon Castro. A revelação artesanal joga o espectador pra um outro estado. O vídeo hoje é muito presente na vida das pessoas. A mídia massifica o cotidiano com as imagens videográficas. Você revelar e montar um filme em casa dá um caráter à sua imagem que é totalmente diferente de qualquer coisa. Fora as manchas, que se formam ao acaso, e que dão todo um tom onírico ao filme. Enfim, experimentemos o experimental! Cristiana Miranda finalizou seu mais recente filme há pouco tempo, “Para limpar lágrimas”, sobre a poesia de Paulo Leminski. Eu fiz assistência de direção e a locução do filme, um documentário experimental feito com uma verba do edital do MinC. Esse filme também foi revelado artesanalmente, em outro processo, pois o filme é colorido. A cópia em 35mm saiu há pouco mais de um mês do laboratório.
GA: Você é um dos fundadores de um projeto coletivo, chamado Filé de Peixe, que começa há alguns anos na Tijuca e hoje está na Lapa. Quais as principais conquistas que o projeto coletivo pode agregar ao cenário cultural e onde ele tem mais dificuldade? Quais são os próximos passos e objetivos do Filé? 
Cataldo: O Filé de Peixe está no seu terceiro ano. Começamos em abril de 2006. É um evento agregador de pessoas ligadas à arte, um espaço laboratorial para artistas apresentarem seus trabalhos e para o público interessado em arte freqüentar. No Filé de Peixe acontece a P.E.P. – Película Epidérmica Pulsante. Trata-se de uma performance poético-cinematográfica. Ocorre uma dupla projeção de slides e filmes em super-8, deixando as imagens sobrepostas, com uma banda tocando ao vivo e um microfone aberto para as pessoas se manifestarem livremente, onde geralmente poetas recitam seus trabalhos. Temos a parceria da banda Mysticow, que faz as interferências sonoras, e do grupo 13 numa noite, que apresenta suas próprias performances em cada evento. Também temos exposições de artes plásticas e fotografias.
O próximo Filé de Peixe será no Museu de Arte Contemporânea, o MAC, em Niterói, dia 25 de outubro. O evento será, pela primeira vez, diurno. Começará às 13h e estaremos finalizando o evento às 20h. Nossa maior dificuldade é a questão de patrocínio mesmo. Fazemos o evento há mais de dois anos na raça, pela pura satisfação de estar fomentando a arte numa cidade cercada de violência, desgraça, cartões postais e alienação por todos os lados. Queremos apoios para continuar fazendo o evento, potencializando-o cada vez mais.
GA: Para você, a atualidade permitiria algum outro artista, como Chaplin a se destacar da multidão para falar sobre a condição na qual o ser humano vive, hoje? Como isso poderia ser feito?
Cataldo: Sim, sem dúvida! Inclusive o mundo precisa com urgência de pessoas assim. O negócio é continuar produzindo e o reconhecimento vem naturalmente. Além da atitude mesmo, realizar, esticar um pano no meio da rua pra passarmos nossos filmes, pegar um microfone e gritar, como fazemos no Filé de Peixe. Acho que as pessoas andam com medo de viver, temos que escancarar essa hipocrisia toda e gritar nossos tormentos no meio da rua mesmo. “A rua é sua“, já disse o Arnaldo Antunes.
GA: Para você, o que é ser artista no Brasil?
Cataldo: Não basta se dizer artista, tem que meter o pé na porta!
Um filme que eu fiz como ator que a galera gosta, chamado “O Obsessor”, dirigido por Danilo Ignarra:
O filme que fiz como ator ao lado da Helena Ignez, uma das maiores honras da minha vida:
Vinícius Longo
Eugênio Máximo arrebenta!